Stanley Kubrick elogiou a dublagem brasileira considerando a melhor realizada no mundo para o filme.
Lançado em 1980, O Iluminado (The Shining) consolidou-se como um dos pilares do cinema de terror psicológico. Dirigido pelo meticuloso e visionário Stanley Kubrick, o longa é uma adaptação — bastante livre, diga-se — do romance homônimo de Stephen King. E embora o próprio autor nunca tenha escondido seu descontentamento com a obra, o filme tornou-se um clássico absoluto, com fãs apaixonados e uma influência que atravessa gerações.
Mas o que poucos sabem é que a versão brasileira do filme esconde um capítulo à parte, igualmente fascinante: a dublagem nacional, realizada pela Technisom, foi elogiada pessoalmente por Kubrick, que considerou o resultado melhor até do que as versões de outros países. Um feito raro — e histórico..

Kubrick e a Câmera do Medo
Em O Iluminado, a câmera não apenas registra: ela vive dentro do Overlook Hotel. Em cenas memoráveis, ela desliza pelos corredores com a mesma tensão que habita os personagens. Seja acompanhando Danny em seu triciclo pelos labirintos claustrofóbicos, ou capturando o olhar cada vez mais insano de Jack Nicholson, a direção de Kubrick exala um horror silencioso e crescente.
Ao contrário de outros filmes de terror da época, que apostavam em maquiagem grotesca e sustos repentinos, O Iluminado opta por um caminho mais sutil — e, talvez por isso, mais perturbador. As expressões faciais, o som ambiente e a trilha sonora incômoda transformam o hotel em um personagem vivo.
Um Inverno no Inferno
A trama gira em torno de Jack Torrance (Jack Nicholson), um ex-professor e escritor em busca de paz e disciplina para terminar seu livro. Ele aceita o emprego de zelador de inverno no isolado Overlook Hotel, nas montanhas do Colorado. Acompanhado da esposa Wendy (Shelley Duvall) e do filho Danny (Danny Lloyd), Jack se muda para o hotel antes que este seja fechado pela neve.
No entanto, o que deveria ser um retiro criativo torna-se um pesadelo. Danny, que possui dons psíquicos — o “iluminado” do título — começa a ter visões perturbadoras. Enquanto isso, Jack gradualmente sucumbe à loucura, influenciado por presenças sobrenaturais e por um passado sombrio que habita o hotel.
Um Pedido Pessoal de Kubrick
Na época do lançamento nos cinemas brasileiros, a prática de dublar filmes estrangeiros era praticamente restrita à televisão. Pouquíssimas produções chegavam aos cinemas com dublagem em português. No entanto, Kubrick, sempre à frente de seu tempo e obsessivo por controle criativo, exigiu que O Iluminado fosse exibido em outros países com dublagens cuidadosamente supervisionadas — inclusive no Brasil.
O diretor já havia tentado algo semelhante com Barry Lyndon (1975), mas, por limitações técnicas, o projeto acabou arquivado. Em O Iluminado, ele não abriu mão.
Quando a Warner no Brasil foi acionada para realizar a dublagem, a gerente de publicidade Elza Veiga recorreu à Combate – Cooperativa de Artistas e Técnicos. Foram realizados testes de voz enviados diretamente a Londres, para que Kubrick escolhesse os dubladores pessoalmente.
A adaptação foi realizada pela Technisom, sob a direção de Pádua Moreira e com supervisão artística do cineasta Nelson Pereira dos Santos — um verdadeiro cruzamento entre dois mundos cinematográficos.

Uma versão abrasileirada
Uma das escolhas mais ousadas da dublagem foi tropicalizar os nomes dos personagens. Jack Torrance virou Jack Torres, e Wendy passou a se chamar Iara Torres. Uma escolha incomum até mesmo para os padrões da época, mas que aproximava os personagens do público brasileiro.
A tradução de Maurício Seixas também incorporou expressões tipicamente nacionais, como o irreverente “pra lá de Bagdá” para descrever o estado alcoólico de Jack. Uma liberdade poética que ajudou a dar identidade própria à versão brasileira.
O dublador escolhido para dar vida ao icônico Jack Nicholson foi Allan Lima — também conhecido por dublar Alan Rickman na saga Harry Potter. Já Betina Vianny, atriz com experiência em produções brasileiras como A Noiva da Cidade e O Grande Palhaço, deu voz a Shelley Duvall (Iara).
Foram oito semanas de trabalho intenso, entre testes, gravações e ajustes. A mixagem final, no entanto, foi feita em Londres, com Kubrick supervisionando pessoalmente. Segundo Carlos De La Riva, funcionário da Technisom na época, esse trabalho poderia muito bem ter sido finalizado no Brasil, tamanha a qualidade do estúdio carioca.
A Redublagem e o Desaparecimento da Versão Original
Com o tempo, a dublagem original acabou sendo substituída. Uma nova versão foi feita para o lançamento em DVD, com nomes como Márcio Simões (Jack), Telma da Costa (Wendy), Thiago Farias (Danny) e Waldyr Sant’anna (Hallorann) no elenco de vozes. Essa redublagem tornou-se a padrão em plataformas como Netflix, TV aberta e canais de assinatura.
Infelizmente, isso dificultou o acesso à dublagem histórica, hoje uma relíquia procurada por fãs, colecionadores e estudiosos da dublagem brasileira.
O Iluminado não é apenas um marco do terror — é também um exemplo raro de quando o perfeccionismo de um diretor cruzou oceanos para se manifestar até na dublagem de seu filme. E mais raro ainda é ver um cineasta como Kubrick, tão conhecido por sua rigidez, reconhecer publicamente o talento de profissionais brasileiros.
Mais do que uma curiosidade, a história da dublagem de O Iluminado é um lembrete do impacto e da importância que as versões localizadas podem ter. Afinal, o terror também fala português — e, nesse caso, com a bênção do próprio mestre.
Veja o elenco da dublagem:
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| Jack Torres (Jack Nicholson) | Allan Lima |
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| Iara Torres (Shelley Duvall) | Betina Vianny |
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| Danny Torres (Danny Lloyd) | Luciana Seixas |
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| Dick Hallorann (Scatman Crothers) | Joaquim Luis Motta |
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| Delbert Grady (Phillip Stone) | Jomery Pozzoli |


















